A coluna do Pôncio – 01.11.2017

Emails, mentiras e vídeos

«O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.»

José Saramago

O “Caso dos Emails” conheceu novas revelações, através da revista Sábado, esta Terça-feira – pelo menos, a quem já teve a Fortuna de a encontrar nas bancas…
Não são tão relevantes como era expectante, pois já eram conhecidas, há muito, via divulgação na antena do Porto Canal, no programa “Universo Porto – da Bancada”.
Num artigo de cinco páginas, permite-se que, com a revelação de alguns nomes envolvidos nas buscas, se possa unir as “pontas soltas” e conferir uma forma, cada vez mais evidente, a um #polvo em que poucos acreditavam que existisse, muitos escarneceram, muitos outros desvalorizaram, mas que, agora, todos são obrigados a conceder, perante os factos que a Realidade demonstra: estamos perante um dos maiores casos de corrupção no Futebol Português.
São muitos os envolvidos – árbitros, delegados, observadores, dirigentes, jornalistas, instituições (FPF, Liga, IPDJ), serviços judiciais e seus funcionários -, numa rede tentacular tão vasta que ainda está a ser desmascarada na sua totalidade.

O Delegado do Cachimbo

Nestas revelações da revista Sábado, aparece o nome do delegado João Pedro Dias a solicitar dois bilhetes para jogos no Estádio da Luz, tendo Paulo Gonçalves anuído a esse pedido, com a explicação de que «é boa gente, benfiquista indefectível».
Quanto ao benfiquismo de João Pedro Simões Dias não restam dívidas, perdão: não restam dúvidas: basta dar uma espreitadela rápida ao seu perfil de Facebook para se encontrar explicação para a sua “doença pelo glorioso”.

Atente-se nas revelações sobre o “delegado do cachimbo encarnado”, como era conhecido entre os colegas, e a sua envolvência com a “causa vermelha”, no artigo da Sábado:

Quem é João Pedro Dias

João Pedro Dias, é licenciado em Direito e possui um mestrado em Estudos Europeus. Ocupa o cargo de Professor de Ciência Política e de Direito Comunitário na Universidade Internacional da Figueira da Foz, e tem obra publicada sobre questões europeias nesta temática. Foi antigo vice-presidente do Beira Mar, em meados da década de 90 e administrador do Estádio Municipal de Aveiro. Também exerceu o cargo de Delegado da Liga nas épocas 2007/08 e 2008/09.

Como beneficiou o Benfica?

Época 2008/2009, mês de Dezembro.
O jogo Benfica vs. Nacional da Madeira, da 12.ª jornada do principal campeonato da Liga Portuguesa de Futebol assumia-se como jogo de cartaz: o FC Porto estava já a dois pontos à entrada para aquela jornada e tinha empatado, de véspera, em casa, ante o Marítimo. O jogo em causa disputou-se no Estádio da Luz, a 22 de Dezembro de 2008 e os encarnados queixaram-se de um golo alegadamente mal anulado a Cardoso, nos últimos minutos da partida, o que originou muitos protestos, sobretudo do capitão Nuno Gomes contra o árbitro Pedro Henriques. O jogador acabaria por ser suspenso por dois jogos e multado em mil euros. O delegado desse jogo foi João Pedro Dias e a sua inacção teve consequências sérias e muito graves.
A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) puniu o delegado ao jogo Benfica vs. Nacional, com 18 meses de castigo, por «falsificação
do relatório».
O acórdão tornado público revela que: “Tal delegado presenciou, após o jogo, no túnel de acesso aos balneários e junto da equipa de arbitragem, comportamentos injuriosos de agentes desportivos e tais comportamentos lhe foram comunicados pela mesma equipa de arbitragem“.
No seu relatório, o árbitro Pedro Henriques, aludia a insultos de Nuno Gomes e de Paulo Gonçalves; no entanto, este comportamento não foi mencionado «intencionalmente» no relatório de João Pedro Dias, segundo a Comissão Disciplinar da Liga.
Esta questão da intencionalidade de omissão de factos é corroborada, agora, pelo email de Ana Zagalo, da direcção comercial do Benfica que, face ao pedido de dois bilhetes pelo entretanto ex-delegado João Pedro Dias, recebeu a seguinte resposta de Paulo Gonçalves:

Desenrasca, por favor. Ele era também delegado da Liga e foi suspenso por dois anos após um processo disciplinar instaurado pela CD (Comissão Disciplinar) da Liga por não ter relatado uns factos no túnel de acesso aos balneários, aqui no Estádio da Luz. Com aquela omissão, safou-me a mim e ao Nuno Gomes de uma sanção, mas lixou-se”.

Foi castigado o delegado, que recorreu da pena, mas não se deu o seu regresso, até porque outros “meninos queridos” estavam na forja para continuar a “branquear” as situações que, época após época, jornada após jornada, se vão fazendo no campeonato nacional e sempre a favor do Benfica.
Não é por acaso que dos 15 (quinze) Delegados de Elite da Liga da época 2017/18, 10 (dez) são simpatizantes do Benfica.

Caso Marco Ficini

O Caso do assassinato do adepto leonino, Marco Ficini vai a julgamento, com a solicitação de uma pena de prisão de 25 anos para o adepto do Benfica – a maior da moldura penal portuguesa.
Em causa estão acusações de homicídio, de participação em rixa, de dano com violência e de omissão de auxílio, sendo designados outros 21 arguidos.
A Justiça decidirá, mas a Imprensa está muda e queda, não vendo eu, nem ninguém, as manchetes que o caso exige que se façam.
Tivesse o episódio, de extrema violência, como principais protagonistas elementos de outra claque, de um clube mais a Norte do Rio Tejo e, com muita certeza, o tratamento da Imprensa, hipotecada ao Benfica, seria bem mais incisivo e corrosivo.


Um abraço do
Bernardino Barros

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