A coluna do Pôncio – 25.10.2017

Arbitragem Autofágica

A Arbitragem Portuguesa está na berlinda. Provavelmente nunca deixou de estar, com todas as criticas que, semana a semana, se vão ouvindo e se vão lendo; mas, desta vez, são os próprios agentes (FPF, Liga, APAF e Conselho de Arbitragem) que estão a criar uma clivagem evidente na sua própria casa.

Já se percebeu que a APAF, na convocação de greve à Taça da Liga, e que o Conselho de Arbitragem, no repúdio à divulgação da omissão de um facto grave no relatório do árbitro Nuno Almeida (a propósito do último Aves vs. slb), se colocam inequivocamente ao lado da FPF na batalha contra a entidade que ainda paga aos árbitros: a Liga “de” Pedro Proença.

Facto evidente: “guerra surda” entre a FPF e a Liga.

Qual o propósito? Esvaziar, ainda mais, a importância da Liga no pouco que ainda lhe resta de liderança do e no Futebol Profissional Português.

Com os sectores da Arbitragem e da Disciplina controlados pela FPF, o papel da Liga resume-se à gestão administrativa e financeira das competições profissionais, à nomeação dos delegados e à Comissão de Instrutores; ou seja: esta Liga só sugere e não tem poder de decisão – como exemplos temos a sugestão para o castigo de Eliseu que a Comissão Disciplinar da FPF não validou e o.… pagamento aos árbitros.

Ora é aqui, neste último facto (caso?) que a bota bate mesmo com a perdigota.

As entidades do sector, APAF e CA, entendem que deve haver mais dinheiro para os árbitros, pedindo um aumento de 10% sobre os valores pagos na actualidade.

Pedro Proença, saído de uma situação financeira grave (Mário Figueiredo deixou a Liga atolada em dividas e de cofres vazios), propôs à classe (APAF) dar o aumento dividido em quatro anos: 1% no primeiro ano e 3% nos restantes três anos.

Fernando Gomes, nadando como Tio Patinhas numa piscina de dinheiro (quem paga 1 milhão de euros à Direcção da FPF + Director Executivo pelo título de campeão europeu, só pode mesmo nadar em notas de euros), propôs-se pagar o aumento pretendido em dois anos (5% mais 5%).

Fernando Gomes vai, como habitualmente, dominando o tema com uma perna de cada lado da ponte, esperando pela altura certa para dar a estocada final: chamar a si a resolução do problema (exemplo: reunião agendada para esta semana com Liga e APAF) e enxovalhar a Liga e o seu presidente. Quem clama pela «Paz para o Futebol», apareceria assim como o pacificador do mundo da arbitragem – papel que lhe é muito querido, mas que carece de veracidade. Essa veracidade será alicerçada quando se dignar explicar o roubo do seu computador e da sua secretária da sede da Federação; quando levantar um processo contra quem lhe roubou as mensagens pessoais do telemóvel que usava na Liga de Clubes, enviando-as posteriormente para um dirigente benfiquista, como consta no email enviado de Carlos Deus Pereira para Paulo Gonçalves.

Existe, todavia, um problema: nem todos são subservientes e a “guerra” no sector da arbitragem é latente. Os árbitros estão divididos: de um lado estão os “puros”, pouco dados a “missas”, do outro lado os “ímpios”, mencionados no e-mail de Adão Mendes para Pedro Guerra. E a realidade maior é o que se passa com o VAR (vídeo-árbitro) onde as sugestões dos observadores do vídeo são ignoradas por alguns árbitros no terreno, pois a confiança nos seus colegas da TV não é a melhor.

A caírem os padres ordenados, que se salvem os sacerdotes puros:

  • Feirense – Rio Ave (Rui Oliveira árbitro – Manuel Mota VAR)
  • Sporting – D. Chaves (Rui Costa árbitro – Bruno Esteves VAR)
  • V. Setúbal – Marítimo (Vasco Santos árbitro – Carlos Xistra VAR)
  • V. Guimarães – Portimonense (Hélder Malheiro árbitro – Bruno Esteves VAR)
  • D. Aves – Benfica (Nuno Almeida árbitro – Vítor Ferreira VAR)

Convém referir que há várias situações que não caíram bem no seio dos árbitros.

A primeira quando, após o castigo aplicado a Jorge de Sousa e imposto por José Manuel Meirim, este se apresentou na reunião do CA com os árbitros, para exigir «tolerância zero para entradas perigosas» – situação que foi considerada por muitos como uma afronta do “chefe da disciplina”.
A segunda, agora, quando a APAF fala em convocação de greve para as jornadas da Taça da Liga de Novembro e Dezembro, mas ainda não ouviu os delegados sindicais sobre a dita greve.

Pedro Proença tem a cabeça a prémio, disso não há dúvidas. Mas, até agora, soube sair sempre incólume dos mais mediáticos momentos de pressão por que passou.
Primeiro, com a proposta de revisão de alteração legislativa sobre as competições desportivas profissionais, apresentada pelo grupo parlamentar do PSD – curiosamente depois da recepção de Luís Filipe Vieira, no Estádio da Luz, a uma comitiva de 24 deputados da Assembleia da República. Recorde-se que pretendia o PSD passar para a Federação a competência de elaborar os regulamentos da Arbitragem e da Disciplina das ligas profissionais.
Dias depois, o grupo parlamentar social-democrata retirou essa proposta de revisão, por oposição do grupo parlamentar do PS e pela contestação da Liga e dos seus associados (clubes).
A segunda aconteceu quando, na última Assembleia-geral da Liga de Clubes e após uma revisão estatutária, alguns clubes pediram eleições antecipadas para a presidência desse organismo e em caso de votação favorável àquela revisão. Rapidamente, qual semelhança ao tempo da propaganda de Goebbels, saiu na generalidade dos média a “notícia” de que Pedro Proença se tinha «demitido»; mas, ao invés e à revelia dos seus detractores, não só continuou na presidência da Liga como ainda viu a revisão dos estatutos ser aprovada.
A terceira tentativa de o isolar (derrubar?), poderá vir desta” guerra surda” no sector da arbitragem.
Terá Pedro Proença equilíbrio suficiente para aguentar o movimento do baloiço?

“Não sei qual é a maior tentação, se a necessidade, se a cobiça.”

Padre António Vieira


Um abraço do
Bernardino Barros

Comentários

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *